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Antônio Conselheiro: amigo do povo e reformador Social

  • há 19 horas
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Foi no início de 1871 que, Antônio Vicente Mendes Maciel, nasceu na Vila de Quixeramobim, no dia 13 março de 1830, tendo como pai Vicente Mendes Maciel e como mãe Maria Joaquina de Jesus, não estando nesse período o casal legalmente casado. Antônio foi considerado, posteriormente, filho natural do casal, pois o seu pai, Vicente Mendes, contraiu núpcias com sua genitora pouco antes do falecimento dela, em 1834, legalizando a situação do filho e das suas irmãs, Francisca e Maria.



A vida do menino Antônio Vicente, rebento dos Maciéis, cujas desavenças mantidas com os Araújos, pessoas poderosas, desencadearam uma das mais célebres brigas clânicas da região, não foi de todo afetada por tais ocorrências, posto que seu pai mantivera-se à margem das lutas, ocupando-se em manter os cuidados com a família e proteger sua prole, criando-os dentro dos princípios do catolicismo ao tempo que encaminhava o primogênito, Antônio Vicente, para estudos com o professor Manoel Antônio Ferreira Nobre.


Aprendeu o moço a ler e escrever, acrescentando o mestre aos seus estudo a Gramática e Escrita de Latim Básico, formação que lhe seria muito útil no futuro. Não era um tosco, analfabeto e rude como o descreveria seus detratores em anos posteriores. Morto o pai em 1855, Antônio Vicente labuta pela sobrevivência, em princípio como comerciante, mas sem sucesso. Casa-se, no entanto o matrimônio naufraga, após constatar adultério da esposa. Muda constantemente de profissão e de cidade. Preservava, contudo, intocada sua fé religiosa. Junta-se em Santa Quitéria, ainda em terras cearenses, à Joana Imaginária, santeira, com a qual tem um filho batizado de Joaquim Aprígio.


A inquietação íntima permanecia. Frustrara-se o desejo alimentado pelo pai de fazer-se sacerdote, mas não a vontade de servir a Deus, não só com palavras, “em feitio” de orações, mas também realizando obras, conforme o exemplo do Padre Mestre Ibiapina que conhecera na sua terra natal e que seria sua inspiração da vida inteira. Viaja até o litoral e chega a Fortaleza. Lá encontra João Brígido, companheiro de infância, agora jornalista e escritor e trocam palavras. Indaga-lhe o conterrâneo o que estava a fazer da vida.


Responde que se empenhava em cumprir um voto que fizera a São Francisco na Bahia. Negando a Brígido pretender realizar seu intento em Fortaleza, anuncia que o fará no sertões do Canindé. Pronuncia ao final do curto diálogo a frase célebre: “Depois seguirei para onde me chamam os mal aventurados”.


Toda a sua trajetória posterior nos sertões afora, em vários estados, se caracterizará pela pregação religiosa, retirada de consultas constantes à Bíblia e à Missão Abreviada e por operosa assistência social aos mais pobres, aos desvalidos, aos explorados e olvidados pelo Estado Monárquico e depois Republicano e seus aliados, quais sejam: as elites políticas, os latifundiários e a própria Justiça. Cresce em prestígio e fama. Fala e faz: repara e constrói capelas, igrejas, conserta cemitérios abandonados, promove escavações para produção de aguadas e pequenos açudes. Pede ajuda para os seus, distribui o que amealha com as esmolas ofertadas. Sua vida é simples, modesta e moralmente inatacável.


Enquanto alguns jornais de província o denominam “santarrão”, maníaco, insano e com não casual frequência fanático, o seu povo o trata afetuosamente de Bom Jesus Aparecido, Bom Jesus Conselheiro, Santo Antônio Aparecido ou simplesmente Antônio Conselheiro.


Sua ação missionária e sua capacidade política de doutrinar e organizar sua gente mobiliza a reação conservadora civil, estatal e religiosa. Querem-no enquadrado na lei e na ordem, não importando sob qual pretexto. Na localidade de Missão de Saúde, nas cercanias de Itapicuru onde estava estabelecido, as autoridades o prendem imputando-lhe o crime de matricídio. Não existem sequer indícios que sustentem tal incriminação. São apenas especulações e maledicências disseminadas por gente dos coronéis e padres mal-intencionados, hóspedes contumazes dos potentados.


Insultado por policiais que o hostilizam na cadeia miserável de Itapicuru com a cumplicidade do Delegado de Itapicuru, Luiz Gonzaga de Macedo, em ofício ao Dr. Domingos Rodrigues Guimarães é revelada uma das causas verdadeiras para a prisão do Beato ao se declarar que o povo preferia suas prédicas às do vigário local, reunindo assim em torno da sua pessoa centenas de ouvintes que lhe creditavam confiança e respeito. Decidem levá-lo preso e escoltado a Salvador, apesar do inconformismo popular que protesta, enquanto seus inimigos de classe celebram a arbitrariedade.


Ao desembarcar na Estação Ferroviária da Calçada, em Salvador, no dia 05 de julho de 1876, não era tão somente um preso comum, era na verdade um prisioneiro político (grifo nosso), afastado da convivência social para que no isolamento pudessem impedi-lo de veicular suas ideias de uma vida comunitária socialmente justa, capaz de dignificar o trabalho a existência dos mal-aventurados do mundo, conforme já anunciara a João Brígido nos primeiros passos da sua caminhada em Fortaleza. Remetem-no detido para o Ceará e em sua terra natal, comprovadas serem infundadas as acusações criminosas que lhe atribuíam – perguntara, inclusive, como poderia matar sua mãe se viu-se na orfandade aos quatro anos? é libertado. Convicto dos seus pensamentos e da sua missão de fé religiosa e do seu apostolado político, retorna à Bahia.


Empreende então uma notável caminhada. Por onde andeja deixa sua marca de pensador e obreiro. Não se intimida com as ameaças de sempre e dos mesmos: barões, políticos influentes, o baixo e o alto clero católico, chefetes de polícia e altos agentes policiais, nada o detém. Não caminha mais sozinho, homens, mulheres, velhos e crianças, abraçam o líder e a sua causa. Vigiado, cada vez mais cerceado nas suas pregações, segue na direção do norte baiano. No lugar chamado Maceté, em maio de 1893, então pertencente ao município de Tucano, é atacado por contingente policial da Bahia. Sangue é derramado. Lucidamente, compreende que necessita interiorizar mais seu caminhar, reaparecendo, segundo testemunhos presenciais, no dia 13 de junho, na Fazenda Canudos, dia consagrado a Santo Antônio, padroeiro de muitos lugares nos sertões e santidade amada pelo povo catingueiro.


Vai ali fixar moradia, territorializar sua utopia de uma sociedade igualitária que eliminasse gradativamente as desigualdades entre ricos e pobres, contraditória aos ensinamentos das palavras de Deus, de quem, aliás, não admite jamais a representação reencarnada.


Assume, sim, sua condição de pastor, de apascentador de almas, não denegando, contudo, seu papel de líder da sua Vila, agora rebatizada Belo Monte, recebendo com bonomia e cordialidade todos que o procuravam em busca de conselhos e de abrigo. Em seu entorno, o cerco político e sociorreligioso se radicaliza, nas adjacências e na capital. O revolucionário que ousara construir uma alternativa de mútua cooperação do lavor e da partilha da terra e dos bens carecia ser destruído, tanto ele quanto sua cidadela e seu povo composto por mestiços, negros, índios: cearenses, alagoanos, sergipanos, pernambucanos e baianos, além de camponeses pobres e remediados, sem terras e sem teto.


Delenda Canudos! Esta foi decisão tomada nos Salões do Poder. Logo se iniciaria a faxina ética e o assassínio de milhares de seres humanos, genocídio deliberado e imprescritível, crime para nunca ser olvidado. Hoje, 130 anos depois, professores, intelectuais, artistas, profissionais liberais e humanistas exigem pedido de perdão do Estado Brasileiro ao povo sertanejo, por meio do Manifesto à Nação Brasileira, intitulado 500 Vozes pela Reparação de Canudos, lido publicamente no dia 12 de junho de 2026, na Cidade do Salvador, com aclamação dos presentes em momento de grande emoção, quando se fez sentir o sentimento de liberdade como sonho inegociável, pois foi imbuído dessa crença que o povo conselheirista se manteve altivo e valente ante as baionetas, canhões e baionetas republicanas.

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